Acelera12/12/2014 | 08h59

Piloto de 15 anos desponta como promessa nacional do motocross

Gaúcho Enzo Lopes detém há três anos o recorde de vitórias entre todas as categorias

Piloto de 15 anos desponta como promessa nacional do motocross Anderson Fetter/Agencia RBS
Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Falta pouco para as merecidas férias das competições. Entre os saltos e curvas e em meio à poeira da pista de terra à beira do rio Taquari, em Lajeado, Enzo Lopes, 15 anos, tem outras preocupações além de manter a primeira colocação geral no ranking brasileiro de motocross. Ele é o líder na categoria 85 cilindradas e há três anos detém o recorde de vitórias (entre todas as categorias).

Assim que o motor quatro tempos da KTM 250cc de Enzo desliga e ele tira o capacete, os olhos mudam o foco para a tela do celular. O piloto campeão nacional 11 vezes, considerado a maior aposta brasileira na história do esporte, quer notícias da escola, dos amigos e das meninas, como qualquer garoto da sua idade. 

Enquanto está na pista, porém, Enzo é um adulto. A concentração precisa ser total e as centenas de notificações no WhatsApp têm que ser deixadas de lado. Não é como uma corrida de MX vs ATV Supercross com os amigos no Xbox. As lesões no ombro e no pulso e o pino na tíbia que o digam. Por isso, o olhar se mantém sempre na próxima curva e o pensamento foca na linha de chegada. Ele acelera na reta, reduz antes da curva e volta a acelerar na saída. Inclina-se para o salto e, no ápice, contorce um pouco as pernas fazendo a moto virar no próprio eixo, até voltar ao solo e acelerar, mais uma vez.

— É difícil ver um atleta com o estilo dele — diz Léo Lopes, o pai.

O salto é o momento de descanso e relaxamento para um piloto. Além da moto, calça, colete, luvas, botas, joelheiras, protetor de pescoço, óculos especiais e capacete pesam nas curvas e ultrapassagens.

"Turn down for what" ��✊ feelin' comfy on the 2fifty

Um vídeo publicado por Enzo Lopes™ (@enzolopes16) em



Os equipamentos sobrepostos dificultam a transpiração, e a pele e a corrente sanguínea não resfriam como deveriam. A temperatura do corpo sobe tanto que a camiseta que Enzo usa sob as proteções precisa ser rasgada para liberar um pouco do calor e do suor.



O sol a pino esquenta ainda mais o treino. Enzo desacelera e deixa a pista antes mesmo de a poeira começar a descer. É hora de desligar o motor. Vítor Pozzebon, padrinho e mecânico, precisa lavar a moto e prepará-la para o transporte até Minas Gerais para mais um campeonato. Funcionário do pai do piloto há trinta anos, lembra da primeira vez em que o viu em uma moto: 

— Tinha três anos e precisava de ajuda para se equilibrar em uma PW 50 cilindradas.

O menino cresceu e os troféus ocupavam toda a loja de equipamentos de motocross da família quando o pai decidiu que era hora de levar a brincadeira a sério. Em 2010, vendeu um terreno para investir na carreira do filho.


Fotos: Anderson Fetter/Agência RBS

Pronto para ser ídolo

A tela do iPhone novinho parece mais interessante do que tudo que acontece fora da pista. Enzo troca mensagens com Stefan Everts, lendário piloto belga, campeão mundial por 10 vezes. Os dois se conheceram há dois anos, em um curso de motocross em Bento Gonçalves. Everts, 42, apadrinhou o garoto, que já foi à Bélgica para treinar com o ídolo. Em agosto, Everts foi a Lajeado à convite de Enzo e de um patrocinador em comum.

Aos poucos, o garoto também é preparado para virar ídolo. As camisetas com o número 16 ficam bem posicionadas entre as de atletas consagrados, nas araras da loja da família. Os patrocínios já rendem R$ 500 mil por ano e mantêm as viagens quase mensais para corridas no Exterior e eventos pelo Brasil. A moto é trocada todo ano por um dos cinco patrocinadores e, em 2014, a mudança foi marcante: Enzo deixou a categoria Junior pela MX2 e a moto de 85 cilindradas por uma de 250. Além do motor mais potente, ele precisa competir com adversários até oito anos mais velhos.




Em 2015, uma psicóloga deve ser contratada para ajudar a lidar com a pressão e a alta expectativa criada pela família, por patrocinadores, fãs e por ele mesmo. Hoje, o Enzo não admite ficar em segundo lugar. Essa vontade de ganhar não é exclusividade do esporte, garantem os amigos.

Os colegas de 8ª série do Colégio Evangéligo Alberto Torres afirmam que piloto é perfeccionista até mesmo nos trabalhos simples. Para Christian Bellin, 14, a disciplina adquirida com os 10 anos de treinos ajuda o amigo na escola, mas a rotina de viagens e competições faz com que ele perca alguns eventos importantes para um adolescente. Enzo diz que é por isso que sempre olha o celular: as fotos e as histórias dos amigos ajudam a matar a saudade.

— Nesse ano eu só fui a uma das festas da turma, mas sei que o sacrifício vai valer a pena. É o meu sonho, e eu sou muito feliz dentro das pistas — diz.

É da mesma forma que também fala dos treinos, que ocorrem em pista de duas a três vezes por semana, intercalados por pedaladas de bicicleta, das corridas para adquirir fôlego nos fins de semana e da musculação para ganhar massa, essencial para aguentar o peso das motos, projetadas para adultos, nas curvas. E das várias faltas no colégio. Para o ano que vem, a rotina deve ser intensificada, e as faltas devem sumir: planeja fazer como os atletas americanos, que estudam em casa à noite para se dedicar integralmente aos treinos durante o dia.
 


Enquanto a temporada de competições não termina, Enzo precisa aproveitar o tempo que sobra para um banho de piscina e uma partida de futebol com os amigos, que acabam de chegar. Hora de largar o telefone, esquecer um pouco as motos, e se divertir fora das pistas com pessoas da sua idade, como qualquer adolescente. ​

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