05/07/2013 | 06h04

O Bling Bling brasileiro

O funk nasceu na periferia, denunciou a desigualdade, ralou muito e agora anda de carrão do ano, curte festa só se for na área vip e esbanja. O funk ‘tipo’ ostentação é sucesso nas casas noturnas de diferentes classes sociais e mudou a vida de quem faz.

O Bling Bling brasileiro Shutterstock/
Foto: Shutterstock

O funk subiu na vida. Carros, mulheres bonitas, área VIP na balada e regalias luxuosas fazem parte da nova realidade de alguns MCs, que antes protestavam contra a desigualdade social e a vida difícil na periferia. O chamado funk ostentação, como diz o nome, quer esbanjar – e muito – com o batidão ao fundo. Quanto mais, melhor. Mas para os funkeiros, cantar sobre o luxo significa ter chegado aonde eles sempre quiseram e ser uma inspiração para outros meninos que querem mudar de vida.

Da comunidade Maria da Conceição, no Partenon, Mc Dino, 21 anos, começou a cantar funk aos 13. Ele conta que foi com 19 que a carreira de funkeiro começou a dar certo. Dino, como é chamado Pedro Rosa Alles, é o cara do hit Vem pro Meu Harém, um funk com mistura de música eletrônica confirmado nas baladas desde as classes mais altas até a periferia, lugares que ele frequenta alternadamente sem problema algum:
– Onde me contratarem, eu toco – diz.



Dino, que ainda não deixou o bairro onde cresceu, investe muito nos clipes de suas músicas – que contam com carrões, jóias e muitas (mas muitas) meninas dentro de uma mansão –, e teve de correr atrás e investir bastante na carreira do funk, hoje gerenciada pelo pai. Para isso, abandonou os estudos antes de concluir o Ensino Médio, mas garante que foi com o funk que teve acesso à realidade retratada nas músicas agora.
– Eu canto o que eu presencio, eu não sou milionário, mas sou amigo de jogadores de futebol e donos de casas noturnas – revela.

Os carros e as roupas importadas que aparecem nos clipes e fazem parte do estilo de vida atual remetem ao imaginário americano, especialmente do rapper Wiz Khalifa, que também esbanja nas suas músicas – em uma delas, ele fala que tem tanto dinheiro que poderia abrir um banco. Aliás, os americanos do rap são os precursores desse estilo. As tatuagens, os colares com cifrão, dente de ouro já são marcas registradas desses artistas, que também cresceram na periferia e hoje moram em mansões. 
–  Meu sonho é ver o funk que nem o rap americano, dominando mesmo as paradas – conta Dino.

Já na região Sudeste, um dos caras mais conhecidos e reconhecidos pelo funk ostentação é Mc Guime – ou Guilherme Aparecido Dantas no RG – de 22 anos. Natural de Osasco, em São Paulo, Guime faz em torno de 50 shows por mês e, além dos cachês, os números de views de seus vídeos também passam dos sete dígitos. O hit Plaque de 100, em que ele conta notas de dinheiro, tem mais de 27 milhões de visualizações no YouTube. Assim como Dino, Guime começou a carreira escrevendo e cantando músicas “com consciência”, como ele define.
– Comecei a cantar nessa levada quando surgiu a idéia de fazer que nem nos clipes dos rappers americanos, que mostravam carros e motos. Fui o primeiro a fazer um clipe assim no Brasil e bombou bastante – afirma.
De família humilde e infância difícil, Guime vê no funk ostentação uma maneira de inspirar. Não é só esbanjanar, para ele.
 – A idéia não é ser melhor do que ninguém, eu quero representar que se você quiser a parada, você pode ter da forma que você quiser.  Eu quis provar que eu também era da quebrada, mas estava podendo, quis passar essa visão de que dá para comprar um carro, uma casa legal e dar estrutura para sua família – conta.
Hoje, ele se mudou do bairro em que cresceu, terminou o colégio, comprou apartamento e ajuda a família. Com o funk, Guime conta que conseguiu comprar um carrão sedan, que chamava a atenção das meninas do bairro e se surpreendeu quando começou a faturar muito mais do que seu pai, que ganhava em torno de R$ 2 mil por mês.
– Hoje eu me sinto muito feliz e surpreso, nem imaginava o que ia acontecer. Vejo shows superlotados e fico feliz em saber que tive oportunidade de realizar meu sonho.



É também de São Paulo que vem Rodolfo Martins Costa, 19, o Mc Rodolfinho, que ficou conhecido por um de seus primeiros funks: Osasco é o Afeganistão, música sobre os bairros da cidade. O gosto pelo batidão que começou ainda no colégio também foi incentivado pelas durezas da vida. O funk foi uma das maneiras de homenagear seu melhor amigo, que morreu. Hoje, um de seus maiores hits é Como é bom ser Vida Loka, música que fala de carros, bebida e meninas e tem clipe produzido por Kondzilla, famoso entre o meio do funk, que também já produziu e dirigiu vídeos com Mc Guime. Hoje, anda de carro do ano e já considera funk sua profissão.
– Minha vida mudou da água para o vinho. Estou no funk há cinco anos. No começo, às vezes recebia cachê, às vezes não. Foi 2012 o ano da virada, que comecei a fazer muito show, e fui um dos primeiros a entrar onde o funk não entrava, em estados como Goiás – conta Rodolfinho, que diz tocar desde as comunidades até os bairros mais ricos pelo Brasil.
– Eu acho que o público pode ser pobre ou classe alta, tendo dinheiro ou não eles gostam da batida e do ritmo. O funk ostentação, além de ser ritmo que a molecada gosta, é um incentivo para quem sonha. Já os ricos gostam porque se identificam com o que eu falo nas letras – opina Rodolfinho, que teve de se mudar do bairro em que cresceu por causa do assédio que começou a sofrer por lá.



Mesmo agora, com mais grana, Rodolfinho não faz só o funk ostentação. O funkeiro não deixa de cantar música de consciência, como ele chama. Preocupado – assim como os outros funkeiros – em mostrar que os meninos de onde eles vieram também podem mudar de vida, Rodolfinho não se preocupa com as críticas e nem se está ofendendo alguém, especialmente as mulheres, que aparecem em grande número em seus clipes.
– No funk paulista, não tem isso que o funk carioca tem de desrespeito. Elas gostam, cantam. Levantamos mais o ego do que menosprezamos as meninas.



“Contando os plaque de 100, dentro de um Citroën, Ai nois convida, porque sabe que elas vêm. De transporte nois tá bem, de Hornet ou 1100, Kawasaky tem Bandit, RR tem também.”
Mc Guime

“Bolso esquerdo só tem peixe,
O direito ta cheio de onça,
Ai meu deus como é bom ser vida loka.”
MC Rodolfinho

“Telefone toca toda hora. E o rádio também não para. Várias minas me ligando, querendo ser convidadas”
MC DINO

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