Dissecando as músicas08/04/2014 | 02h11

Professores comentam letras de "Tropicália ou Panis et Circensis", que já foi tema de uma questão há cinco anos

Canção "Lindonéia" foi assunto de uma pergunta na prova de literatura da UFRGS em 2009

Professores comentam letras de "Tropicália ou Panis et Circensis", que já foi tema de uma questão há cinco anos Leonardo Azevedo/Arte ZH
Ícone pop, o Batman é um dos elementos da cultura de massa misturados à salada da canção Bat Macumba Foto: Leonardo Azevedo / Arte ZH

O disco Tropicália ou Panis et Circensis tem 12 músicas. O mais provável é que a prova de literatura aborde as letras, pedindo algum tipo de análise ou comparação. Em 2009, a canção Lindonéia foi tema de uma questão. Confira, a seguir, os comentários dos professores Diego Grando e Vinicius Rodrigues sobre quatro faixas de destaque na obra.

Geleia Geral, de Gilberto Gil e Torquato Neto

O título da canção já dá as cartas do que é o Tropicalismo, um movimento diretamente ligado à antropofagia de Oswald de Andrade, ao misturar elementos da cultura brasileira de raiz com guitarra elétrica e cabelos compridos. O Tropicalismo, assim como o Modernismo de 1922, gosta de colocar a miscigenação, seja ela étnica, religiosa ou artística, no ponto central da cultura brasileira.

A letra faz uma série de referências, muitas em tom de paródia, a representações do Brasil e da nossa cultura. Tem o Manifesto Antropófago do Oswald, ao falar de "Pindorama" e citar "A alegria é a prova dos nove". Tem a Canção do Exílio, ao dizer "Minha terra é onde o sol é mais limpo". Tem até o Hino à Bandeira, em "Salve o lindo pendão dos seus olhos". Aí mistura tudo com o Canecão (casa de espetáculos carioca), a TV, a mulata, o Frank Sinatra, o barroco baiano, a carne-seca, a Mangueira e a Portela, um refrão com bumba-meu-boi, e está feita a geleia. É como um desfile de carnaval em que os carros alegóricos mostram, de forma fragmentária, as múltiplas faces e contradições do país.

A música permite cobrar a leitura do texto, bem como sua relação com todo o Tropicalismo.

Diego Grando

Bat Macumba, de Gilberto Gil e Caetano Veloso

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba
Bat Macumba ê ê, Bat Macum
Bat Macumba ê ê, Batman
Bat Macumba ê ê, Bat
Bat Macumba ê ê, Ba
Bat Macumba ê ê
Bat Macumba ê
Bat Macumba
Bat Macum
Batman
Bat
Ba
Bat
Bat Ma
Bat Macum
Bat Macumba
Bat Macumba ê
Bat Macumba ê ê
Bat Macumba ê ê, Ba
Bat Macumba ê ê, Bat
Bat Macumba ê ê, Batman
Bat Macumba ê ê, Bat Macum
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá!

É um poema concreto musicado, com uma frase que vai perdendo uma sílaba de cada vez, até chegar ao mínimo de uma sílaba, para então voltar a ser reconstruída, de forma simétrica. A canção traz um elemento da cultura pop, o Batman, e relaciona-o com um elemento típico do sincretismo religioso brasileiro, a macumba. Mas a própria frase não é bem uma frase, no sentido de construir uma ideia sintaticamente organizada e com um sentido evidente: fica flutuando entre uma música-tema de seriado de TV e um refrão de culto religioso. É modernidade à brasileira, macumba pop e tecnológica.

Merece destaque a disposição da letra da canção, o que reforça seu caráter visual e a relação do Tropicalismo com o Concretismo. Que desenho se forma ali? Uma meia-bandeira do Brasil, na qual o texto corresponderia ao retângulo verde, e o vazio formado entre os versos, ao losango amarelo? Ou uma bandeirola de São João? Ou seria uma letra, por exemplo um "K", letra estrangeira, "importada" (que só entrou oficialmente no alfabeto brasileiro em 1990)?

Em termos de sonoridade, misturam-se uma percussão bem afro-brasileira e uma viola fazendo um fraseado que mais parece um solo de guitarra, com direito a paradinha, gritos e um coro. É um clima de terreiro, de coletividade em transe fazendo uma invocação a alguma entidade, seja ela espitirual ou televisiva.

Diego Grando

Baby, de Caetano Veloso

A canção que ficou célebre como parte do repertório d'Os Mutantes ganha, aqui, a voz de Gal Costa e expressa uma postura que, eventualmente, tachou os tropicalistas de alienados e filiados ao discurso e ao comportamento "de massa". A cultura de massa, de fato, é mais um componente do repertório da Tropicália, que tentará, também, harmonizar as possíveis tensões entre erudito e popular.

Baby situa-se, principalmente, no âmbito da cultura pop, evocando seu consumo a partir da música — a Jovem Guarda ("...aquela canção do Roberto") — e do contato com as referências que vêm de fora, especialmente dos países de língua inglesa ("Você precisa aprender inglês") — Beatles, Rolling Stones e o rock n' roll eram influências fundamentais para os tropicalistas, da mesma forma que a Bossa Nova e os ritmos e cantores genuinamente brasileiros (inclusive os "esquecidos", os que foram "jogados fora", como Vicente Celestino).

Dessas referências, brotará uma certa unidade responsável pelo estabelecimento de uma cultura jovem, que ainda era emergente no país e que, em vários momentos, será um apelo do movimento: "Você (...) precisa aprender o que eu sei / e o que eu não sei mais". E, nesse encontro da juventude, será possível viver a vida também de maneira descompromissada, o que, igualmente, terá o seu valor — entender isso dentro do contexto do disco mostrará que essa percepção vem acompanhada de outras, por sua vez mais comprometidas com a realidade social.

Vinicius Rodrigues

Parque Industrial, de Tom Zé

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Tom Zé é, talvez, o artista que mais repercuta, ainda hoje, em sua música, o discurso e o estilo tropicalistas. Sempre com uma percepção bastante aguçada da realidade circundante, travestida de non-sense (como era praxe na Tropicália), o compositor busca refletir de maneira irônica, aqui, sobre os efeitos e as impressões levianas do progresso ("O avanço industrial / Vem trazer nossa redenção"), da mesma forma que critica a mediocridade e a resignação do cidadão diante de certos absurdos que o cercam.

Parque Industrial precisa ser analisada, também, dentro de uma esfera musical: a marchinha que acompanha o arranjo pode evocar, por exemplo, "os clarins da banda militar" (citados em Enquanto seu Lobo não Vem, outra canção do disco), porém, independentemente disso, ela revela a variedade sonora que o movimento propagava.

Vinicius Rodrigues

Outras canções

> Em 2012, uma questão comparava Milonga de Sete Cidades, de Vitor Ramil, com Noites do Sertão, de Milton Nascimento e Tavinho Moura. Em seguida, a canção Me Acalmo, Me Desespero, de Cazuza, foi usada numa questão ao lado de um soneto de Luís de Camões.

Confira como uma canção do disco apareceu em 2009

A prova de literatura da UFRGS já explorou uma faixa de Tropicália ou Panis et Circencis, em 2009. Confira a questão comentada por Diego Grando:

Questão 22

Lindonéia é uma composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil que faz parte do disco Tropicália ou Panis et Circensis, manifesto do Tropicalismo, gravado em maio de 1968. A letra foi inspirada num quadro de Rubens Gershman chamado A Bela Lindonéia, ou A Gioconda do Subúrbio.

lindoneia

LINDONÉIA

01. Na frente do espelho
02. Sem que ninguém a visse
03. Miss
04. Linda, feia
05. Lindonéia desaparecida

06. Despedaçados
07. Atropelados
08. Cachorros mortos nas ruas
09. Policiais vigiando
10. O sol batendo nas frutas
11. Sangrando
12. Oh, meu amor
13. A solidão vai me matar de dor

14. Lindonéia, cor parda
15. Fruta na feira
16. Lindonéia solteira
17. Lindonéia, domingo
18. Segunda-feira

19. Lindonéia desaparecida
20. Na igreja, no andor
21. Lindonéia desaparecida
22. Na preguiça, no progresso
23. Lindonéia desaparecida
24. Nas paradas de sucesso
25. Ah, meu amor
26. A solidão vai me matar de dor

27. No avesso do espelho
28. Mas desaparecida
29. Ela aparece na fotografia
30. Do outro lado da vida
[...]

Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações sobre as duas obras apresentadas acima, poema e quadro.

(  ) Ambas as obras sugerem que Lindonéia foi vítima de violência.

(  ) No poema-alegoria, os versos 05 a 11 expressam o drama do povo brasileiro no contexto ditatorial.

(  ) Em ambas as obras, Lindonéia representa o tipo brasileiro em sua miscigenação.

(  ) Os versos 29 e 30 revelam que o eu-lírico vence a solidão através da fotografia de Lindonéia.

A seqüência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é

(A) F — F — V — V.

(B) F — V— F — F.

(C) V — F — F — V.

(D) V — F — V — F.

(E) V — V — V — F.

COMENTÁRIO

A questão propõe uma comparação entre duas linguagens: de um lado, a letra da canção e do outro o quadro. Para respondê-la, é preciso estar atento às especificidades de cada tipo de texto — o verbal e o visual — e buscar as convergências e divergências entre eles. É falsa apenas a última afirmação, pois no trecho apontado, a fotografia "do outro lado da vida" é uma imagem que sugere morte, e não superação da solidão. Além disso, nos versos 25 e 26, o eu-lírico já havia lamentado a solidão como um sofrimento insuperável.

Resposta correta: E

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