E agora, o que eu faço?08/04/2014 | 15h05

Acontece: ansiedade na transição para a vida adulta é comum entre jovens

Busca por aceitação e prolongamento na casa dos pais estariam ajudando a criar uma geração ansiosa e estressada no mundo inteiro

Acontece: ansiedade na transição para a vida adulta é comum entre jovens Shutterstock/Sniegirova Mariia
Foto: Shutterstock / Sniegirova Mariia

Sentir-se perdido em uma fase de transição da vida acontece com a maioria das pessoas. Do colégio para a faculdade, qual curso? Da faculdade para o primeiro emprego, mas será que é isso mesmo que eu quero? Segundo o americano Brady Norvall, especialista em orientar jovens na caminhada para a fase adulta, o cérebro funciona diferente até certa idade e, por isso, adolescentes não devem ser comparados com adultos. Ele esteve no Brasil para uma palestra em março e foi direto ao ponto: ao invés da pressão para ser o melhor, o importante é se conhecer melhor.

- Durante a vida passamos por mudanças em nossas carreiras, no casamento, com o nascimento de filhos, mas é na adolescência que a gente se define e passa por mais mudanças. Os valores formados nessa fase da vida ficam internalizados para sempre - diz Brady, fundador da Find a Better U, especializada na preparação de adolescentes para a entrada nas universidades americanas.

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Ele afirma que a busca por aceitação e a cobrança para ser o melhor criaram uma geração ansiosa e estressada no mundo inteiro. Um estudo realizado pela Universidade de Coimbra, de Portugal, no ano passado, mostrou que o consumo de ansiolíticos (remédios para diminuir a ansiedade) por jovens de cinco países aumentou significativamente nos últimos anos. E o Brasil ficou à frente dos europeus Bélgica, Itália, Espanha e Portugal. Aqui, 35% das pessoas que usam medicação para ansiedade e depressão começam antes dos 26 anos.

 A psicóloga Bianca Sanchotene, de Porto Alegre, especialista no acompanhamento de jovens, diz que gerações anteriores também passaram por estes problemas. Os jovens se despedem de muitas coisas, experimentam novas situações e se aventuram em uma realidade diferente: a escolha da profissão, o primeiro estágio, os relacionamentos. O aumento das responsabilidades na vida pessoal, profissional e social gera insegurança e conflito, que podem ser a causa de tanta ansiedade. O que estaria agravando o problema na geração atual seriam as mudanças no mundo e o prolongamento na casa dos pais.

- As instituições estão mudando sua forma de funcionar, os valores por muito tempo vigentes já não são os mesmos, a influência da mídia e da virtualidade é grande. A adolescência está acontecendo dentro desse contexto social, produzindo transformações e sendo influenciada por elas - explica Bianca.
 
Segundo dados do IBGE, o índice de brasileiros entre 25 e 34 anos que vivem na casa dos pais aumentou de 20% para 24% entre 2002 e 2012. A pesquisa, divulgada no final do ano passado, também apontou um crescimento no número de jovens entre 18 e 24 anos que não trabalham e nem estudam: são 23,4%.

E as aspirações também mudaram: liberdade e independência são citadas antes de ostentação e riqueza pela maioria, em outra pesquisa, realizada pela Faculdade de Comunicação da PUC-RS, em 2013. Independência sim, mas desde que seja com a ajuda dos pais. O desapego ao dinheiro resulta em falta de planejamento e gastos excessivos em itens supérfluos, tudo garantido pela segurança do "paitrocínio".
 
É preciso se distanciar um pouquinho dos pais para poder se lançar no mundo, mas a família continua sendo uma importante fonte de segurança e referência.

- As relações sociais, encontros com os amigos, festas, redes sociais como Facebook e até grupos no WhatsApp são importantes porque representam o olhar de outras pessoas, que não o dos pais, para ajudar o jovem a construir sua imagem de si mesmo -  sugere a psicóloga.

VIDA CARTESIANA?

Mas o que fazer na hora da indecisão? Como resolver os problemas que parecem não ter solução? Na Capital, instituições de ensino já começaram a se preocupar com o assunto. A Perestroika está desenvolvendo o Nitro, um curso especial para quem está passando por dúvidas sobre o que fazer da vida. Michelle Sander, criadora do projeto, diz que a ideia surgiu para tratar de assuntos que são importantes, mas que colégio e faculdade normalmente não abordam.

No currículo, aulas sobre sonhos e por que eles vão ficando distantes com o passar dos anos, o conceito de Felicidade Interna Bruta, futurismo e as profissões que ainda nem existem, além do uso da criatividade para tomada de decisões na vida pessoal e profissional. As inscrições já estão abertas e a previsão é de que o curso tenha 500 participantes através da plataforma de ensino online Descomplica.

- Nos ensinaram a ver a vida de maneira cartesiana, mas qual o problema de mudar duas, três vezes de profissão? Não se preocupem tanto em escolher a profissão certa, tudo bem se vocês trocarem durante a vida. Tem coisas que, se soubéssemos no começo da vida adulta, facilitariam tudo - diz Michelle.
 
Pensando nisso, o Colégio Farroupilha criou o Projeto de Vida, para preparação de jovens do 6º ao 8º ano, sobre as escolhas que eles fazem na vida. A escola quer desenvolver nos alunos o autoconhecimento para facilitar os momentos de decisão quando estiverem terminando o ensino médio. Entre as estratégias estão oficinas de cinema, dança, workshops, ciclos de palestras e acompanhamento vocacional e psicológico.

 - O papel profissional é só um dos que eles vão ter na vida. Nossa ideia é passar a importância de se conhecer melhor para ter uma capacidade maior de tomar decisões no futuro. Queremos ajudá-los a identificar gostos, afinidades e oferecer as ferramentas necessárias para eles encararem a vida - diz Rafaella Perrone, coordenadora de ensino.

Por isso, a gente repete, não é só com você. Essa fase da vida é também cheia de possibilidades e conquistas. As novas experiências podem assustar mas, provavelmente, delas vão surgir as melhores histórias que você vai contar.

CURIOSIDADE

É no lobo frontal do cérebro que está a nossa diferença. Os adultos têm essa região neural mais desenvolvida, e é ela a responsável pelas tomadas de decisões, respostas afetivas, capacidade para ligações emocionais e determinação. Com a idade é que começamos a resistir melhor a pressões e dificuldades. Até os vinte e poucos, não é só o corpo que toma forma, mas nossos valores e metas.

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