09/08/2013 | 06h04

O FIM DO RELACIONAMENTO NÃO É O FIM DO RELACIONAMENTO

Hoje em dia, se livrar de um ex é tarefa difícil. De que adianta a fila querer andar se tá todo mundo conectado pelas redes sociais?

O FIM DO RELACIONAMENTO NÃO É O FIM DO RELACIONAMENTO Arte: Carina Kern/
Foto: Arte: Carina Kern

Ele fica com os discos. Ela fica com os livros. Ele fica com o sofá. Ela fica com as fotos do Instagram, mas precisa desmarcá-lo – e ai dele se der like. Ele fica com os amigos em comum do Facebook e ela pode até curtir as postagens, desde que ele ainda não tenha feito isso. Compartilhar alguma coisa marcando o outro, só se perguntar antes em inbox, por favor.

O final de um namoro sempre foi e sempre vai ser um período complicado. A diferença é que agora essa sensação pode durar pra sempre – até que a internet, enfim, os separe. Ou não. Esse é o caso de João*, designer de 22 anos, que tenta manter a amizade após as separações, mas aprendeu na prática que isso nem sempre funciona.

– A gente terminou há uns dois anos e até hoje eu não posso ficar online que ela já começa a falar que quer voltar a me ver, fica postando imagens na minha timeline, me marca em fotos – desabafa ele.

Ultimamente a ex de João começou a buscar manter contato também do lado de fora das redes sociais, procurando se encontrar com ele ao vivo.

– O pior pra mim é estar conversando com outra guria e ela vir me cobrar algo que não existe mais. Já deixei bem claro que somos apenas amigos, mas não adianta. Não posso postar nada na timeline de alguém que eu esteja interessado – reclama ele.

João começou todos seus namoros via rede, alguns ainda no tempo do Orkut. Agora aprendeu que, também na intenet, eles custam bastante pra terminar. É mais fácil sarar a dor de cotovelo que apagar o histórico da timeline. Ah, o amor nos tempos do like.

OS FANTASMAS DOS NAMOROS PASSADOS

Por algum motivo não deu certo, cada um foi pra um lado e a vida segue. Mas, quando parece que a fila andou, surge aquele comentário inoportuno do ex em uma foto sua com o atual namorado. Até mesmo um simples curtir em uma postagem qualquer faz com que o fantasma da ex-namorada volte a assombrar o seu convívio.

– As diferentes emoções envolvidas são consequência direta das publicações nas redes sociais. Tem pessoas que nem fazem ideia do tamanho do impacto que cada post seu tem na vida do outro – afirma a psicóloga Caroline Brandalise.

Segundo ela, as redes sociais são um espaço público e a ideia de virtualidade sugere que as coisas aconteçam em uma realidade paralela quando, na verdade, é um espaço onde as pessoas interagem mais de imediato, e tudo está sendo acompanhando em tempo real.

– No inicio do meu novo namoro, ter o meu ex no Facebook foi um problemão. Meu atual namorado leu umas mensagens que o deixaram em dúvida se eu ainda sentia alguma coisa pelo meu ex. Mas, depois conversamos e resolvemos tudo – diz Joana*, 19 anos, que tem a mania de dar sua senha nas redes sociais para seus namorados. Isso que é confiança.

Existem casais que combinam de deletar ou bloquear os namorados anteriores, o que pode ser uma boa saída pra quem se considera um pouco mais ciumento. Entre os que conseguem administrar bem esse tipo de sentimento, se pode chegar a um consenso que envolva continuar nos contatos do ex, mas sem nenhuma intervenção – como comentários, curtidas ou compartilhamentos, por exemplo.

A publicitária Aline*, 25 anos, até que tentou continuar a amizade com o ex-namorado quando ele pediu pra sair da casa onde moravam. Mas apenas uma semana depois, o cara já estava em um novo relacionamento com uma colega de trabalho.
– Quando ele colocou o status namorando, tive certeza de que eles já estavam juntos antes. Avisei que estava deletando ele de todas as redes que tínhamos contato. Atualmente não mantenho nenhuma amizade com ex. Nem online, nem offline – diz Aline.

Claro que tudo depende de como foi encerrada a relação e, principalmente, como será o novo relacionamento no futuro. Muitas vezes, as pessoas evitam lugares como uma academia, um restaurante ou até mesmo uma praia pra não dar de cara com o ex-namorado, e o protocolo em redes sociais pode até seguir a mesma lógica.

– Deletar do Facebook não faz com que a pessoa seja deletada dos grupos onde os dois tem contato. Dependendo da pessoa e do tipo de relação, vale a pena mexer nas configurações de privacidade da rede social para controlar o que se vê e para quem se publica – sugere a psicóloga.

O namoro de Juliana*, 19 anos, terminou em outubro depois de dois anos. Como ambos moram na mesma cidade e têm muitos amigos em comum, acabam se encontrando com frequência em festas e eventos. Além disso, ainda mantém contato direto através das redes sociais – o que pode ser um problema na hora de seguir em frente.

– Tentei namorar há um mês, mas não deu certo, pois ainda existe sentimento do antigo relacionamento, e ter contato com o ex atrapalhou um pouco – admite ela.

OS FANTASMAS DOS NAMOROS PRESENTES

O status de relacionamento do Facebook é a nova aliança de compromisso. Se o namoro não está formalizado na rede social, ele não existe.Para a psicanalista Regina Navarro Lins, mais do que um aviso de que se está comprometido com alguém, isso acontece bastante para que a pessoa com quem você divide seu tempo não se sinta desprestigiada.

Estamos todos presos às escolhas que fazemos. São experiências e aprendizados que levamos não apenas para a nossa vida particular, mas que hoje em dia acabam indo parar nas telas de pessoas que nunca ouvimos falar.

– Quando a gente deixa tudo tão aberto, as pessoas se sentem íntimas e convidadas a opinar e participar. E às vezes tu não quer isso, só quer desabafar. Desde que brigamos, meu atual namorado posta textos enormes que são praticamente indiretas pra mim. Isso me irrita muito, afinal ninguém precisa saber o que acontece entre nós – desabafa Aline.

Segundo a psicóloga Caroline Brandalise, essa exposição da vida pessoal de um casal pode levar a outros problemas conhecidos de quem lida com a (falta de) privacidade.

– Acho que a maneira como o casal utiliza as redes sociais pode provocar desconforto, insegurança e ciúmes, e isso compromete a relação – diz a psicóloga, sugerindo que o casal converse sobre o assunto sempre que encontrar, por exemplo, algo diferente escrito no perfil de um ou de outro em alguma rede social.

OS FANTASMAS DOS NAMOROS FUTUROS

– Estamos no meio de um processo de mudança de mentalidade. Dá pra fazer previsões pelos sinais que temos hoje, como a diminuição dos preconceitos, de que vamos ter outra forma de encarar relacionamentos no futuro – diz Regina Navarro Lins.

Nos anos 50, se alguém dissesse que dentro de alguns anos as pessoas poderiam – e iriam – se divorciar umas das outras com frequência, pouca gente acreditaria. Casamento de pessoas do mesmo sexo era algo impensável e hoje vemos cada vez mais isso ocorrer.

A perpetuação de relacionamentos após o fim de um período de intimidade é visto como algo positivo pela especialista.

– Antigamente, o namoro acabava e você não via mais a pessoa com quem passou boa parte da sua vida. Mas o contato pode ser bom, ainda pode existir amizade, e a internet propicia bastante esse tipo de interação – diz.

Qualquer afirmação sobre o futuro faz parte de um conjunto de possibilidades que podem ou não vir a se concretizar. Segundo Regina, a tendência é que sejamos mais livres, mas sem um modelo predominante como o que temos hoje.

– As pessoas ainda são regidas pelo amor romântico, que propõe a busca por alguém que te complete, mas isso parece estar saindo de cena. Se eu tivesse que dizer o que vai acontecer em algumas décadas, seria uma grande mudança na forma como as pessoas ficam e vivem juntas, que seria bem diferente do que é hoje – prevê Regina, citando que quem quiser passar 30 anos ao lado da mesma pessoa vai fazer isso do mesmo modo que aquele que quiser ter três namorados ao mesmo tempo.

– Na alegria ou na tristeza, as redes sociais fazem parte do enredo de muitas histórias de amor, de brigas e de relacionamentos em geral – brinca a psicóloga Caroline Brandalise.

No futuro, o Facebook é que vai ter que atualizar suas possibilidades de status de relacionamento para dar conta dessa diversidade toda.

*Nomes modificados para preservar a identidade dos entrevistados.


Confira também: dizer não ao compartilhamento dos seus momentos especiais pode ser, sim, muito legal

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