26/07/2013 | 17h12

Multitarefar: ser ou não ser tudo ao mesmo tempo?

Tudo ao mesmo tempo pode ser bom mas é preciso definir prioridades. Ser multitarefa não é um bicho de sete cabeças, nem de oito braços

Multitarefar: ser ou não ser tudo ao mesmo tempo? Ilustração: Carina Kern/
Foto: Ilustração: Carina Kern
Você pode publicar uma foto ou um comentário em redes sociais usando seu smartphone enquanto almoça e conversa com a família em frente à televisão ligada. Contudo, fazer várias atividades simultaneamente não é exclusividade da tal Geração Y – como são chamadas as pessoas que nasceram entre 1980 e 2000 – ou dos mais jovens.

– Nós fazemos várias coisas ao mesmo tempo desde que nascemos. Queira ou não queira, estamos treinados para isso, e nosso cérebro responde muito bem aos estímulos externos – explica o doutor em Medicina Ivan Izquierdo, Professor Titular e coordenador do Centro de Memória do Instituto do Cérebro da PUCRS, que admite não conseguir trabalhar sem ouvir música.

Aliás, isso não é coisa só da raça humana, já que outros animais também conseguem ser multitarefas. Um cachorro, por exemplo, ao atender o chamado do dono também presta atenção em tudo que está ao seu redor, como barulhos, cheiros e movimentações. Mas provavelmente o ser humano é a criatura mais capacitada a ter esse tipo de comportamento, acredita o doutor Izquierdo.

Além de não ter relação com a nossa idade ou espécie, ser multitarefa também não é necessariamente uma questão de gênero. Afirmar que esse comportamento é típico de mulheres é uma percepção que vem da época em que o sexo feminino começou a acumular a função tradicional de cuidar da casa e dos filhos com uma carreira profissional.

– Parece que o homem tem mais dificuldade em fazer tarefas simultâneas e consegue fazer apenas uma coisa por vez. Mulheres têm uma facilidade maior porque acabam fazendo diversas tarefas domésticas ao mesmo tempo e desenvolveram essa habilidade – afirma a psicopedagoga Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).

TENTÁCULOS TECNOLÓGICOS

No que diz respeito à tecnologia, existe uma evolução cada vez maior e mais rápida, que atinge igualmente guris e gurias de todas as idades – mas principalmente os nativos digitais. Por isso, o fenômeno da multitarefa vem sendo observado e estudado com maior frequência nos últimos anos.

– A tecnologia ajuda muito a desenvolver essa habilidade. É possível treinar o cérebro, e quanto mais tarefas fazemos ao mesmo tempo, mais conseguimos melhorar nosso desempenho – explica o doutor Izquierdo.

O ser humano vai se adaptando ao meio em que vive e essa é uma das características mais importantes que temos. Quando nos oferecem novas formas de nos relacionarmos com o mundo, nos acostumamos com uma diversidade cada vez maior de aparelhos, linguagens e maneiras de nos comunicarmos. Ter habilidade de utilizar esses novos conhecimentos é algo que chama a atenção – para o bem ou para o mal.

– Acredito que hoje em dia nem seja tão estranho pessoas que fazem isso. De qualquer forma, eu não sei se gostaria de conviver comigo mesmo. Acho que seria frustrante conversar com alguém que, às vezes, parece não estar prestando muita atenção no que digo. Por falar nisso, já tive um colega que digitava e-mails enquanto conversava comigo, e não era nem um pouco legal – diz o estudante Eduardo Gindri Lucas, 23 anos, que cursa Sistemas para Internet no Unilasalle Canoas e se considera uma pessoa que faz muitas coisas ao mesmo tempo.

Isso pode ser visto como um ponto positivo no mercado de trabalho, já que pessoas multitarefas são tidas por mais proativas. Por outro lado, pode prejudicar quando é preciso executar uma atividade mais focada, como estudar, por exemplo, quando a atenção deve ser maior e durante um período de tempo mais longo.

Segundo Quézia, alguns alunos aprendem melhor ouvindo do que escrevendo, ou seja, existe uma relação multitarefa também na aprendizagem.

– Infelizmente há um descompasso entre o que a escola oferece e o que o aluno espera – diz a psicopedagoga.

Quando esse comportamento é verificado nas escolas, quase sempre aparece a figura do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) como vilã da história. Quézia acredita existir um certo exagero na hora de utilizar a sigla como explicação para a aparente falta de interesse dos alunos nos estudos.

– O fato de ser multitarefa não significa que o estudante tenha esse transtorno. Pode ser que ele simplesmente não tenha desenvolvido o hábito de focar sua atenção – explica ela.

TODA GERAÇÃO FAZ #MIMIMI

Com 20 ou 30 anos de idade, os adultos pertencentes à Geração Y começam a atingir cargos de chefia no mercado de trabalho, fazendo com que a habilidade de prestar atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo seja posta à prova.

– Quase sempre estou ouvindo música. Navegar nas redes sociais também é bem comum, mas sempre defino alguma prioridade para lidar com mais atenção. Apesar de ouvir música e entrar em outros sites, a prioridade é sempre o trabalho ou o estudo – garante Eduardo, que não lembra de fazer várias coisas ao mesmo tempo antes de se envolver com a área da informática, perto dos 19 anos de idade.

O que parece ser um consenso com relação aos indivíduos considerados multitarefas é que, mais do que representar toda uma geração, o que conta bastante são as características pessoais de cada um.

– Habilidades se conquista e, quanto mais forem estimuladas, mais a pessoa vai dar conta das tarefas – fala Quézia, fazendo eco à opinião do doutor Izquierdo sobre o assunto.

– Evidentemente, existem momentos em que é preciso se concentrar mais, mas depende de cada um. Temos que aprender a focar no que é mais importante naquele momento – sugere ele.

Izquierdo cita uma passagem da vida do médico espanhol Santiago Ramón y Cajal como exemplo sobre o assunto:

– Era por volta de 1920, ele tinha uns 80 anos e já reclamava de ter que prestar atenção a uma coisa ao mesmo tempo em que ouvia música vindo do apartamento ao lado e os barulhos da rua. Era uma época muito anterior ao computador, até mesmo à televisão. O ser humano sempre se queixa que não vai conseguir (fazer várias coisas ao mesmo tempo), mas sempre consegue. Às vezes isso parece ser difícil, e às vezes é mesmo difícil, mas estamos conseguindo – pontua o doutor Ivan Izquierdo.

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